terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

NÚPIS, NUNCA MAIS.


Núpis, Nunca Mais
Certo dia eu voltava de uma viagem a Ziguinchor, via São
Domingos, passando por Ingoré, rumando para São Vicente onde
faria a travessia do grande Rio Cacheu. Ali tinha que usar uma
balsa para assim ganhar o caminho de volta a Bafatá.
Ziguinchor é a segunda cidade mais importante do Senegal,
país colonizado pelos franceses. Esta cidade fica na região do
Casamance, ao sul do país. Além da fronteira, a primeira cidade
guineense é São Domingos.
A cada seis semanas íamos a Ziguinchor, pois tínhamos
duas filhas, a Márcia e a Luciane que estudavam lá em regime
interno na Bourofaye Cristian School. Além de passar o fim-desemana
com as filhas, ainda nos províamos de certos alimentos
não encontrados na Guiné.
Naquele dia eu vinha só, dirigindo o Volvo da missão em
que trabalhava. Aquele carro havia sido doado pelo Exército
da Suécia. Foi de grande ajuda para todos, pois possuía quatro
pneus lameiros, tração nas quatro rodas e motor a diesel. Era
um ótimo carro para aquelas estradas, péssimas, principalmente
quando elas terminavam. Abria seu próprio caminho no mato
e seguia em frente.
Quando sai de Ingoré rumo ao porto da balsa, próximo a
um vilarejo de nome Antotinha, de repente surge no meio da
estrada saindo do mato uma jovem senhora que balançando os
braços desesperada fazia sinal para que parasse.
Como ela não tinha nenhuma carga, pois é quase impossível
imaginar uma mulher africana sem uma carga; pensei logo
que se tratava de um acidente, um filho doente talvez. Ela se
aproximou rogando encarecidamente que a levasse para longe
dali. Aí eu fiquei encabulado. Achei que ela havia matado alguém
e por isso precisava fugir dali.
Não querendo me comprometer, pedi-lhe que me contasse
a verdade, o que ela tinha feito de tão grave para fugir assim. Ela
me disse que nada havia feito, mas que seu homem a procurava
para matá-la. Ele não sabia onde ela estava, porém mais cedo ou
mais tarde ele a descobriria, daí a necessidade de ganhar tempo,
fugir dali, informou a tal mulher. Deixei que ela entrasse no carro
como pensei em deixá-la no porto da balsa que estava bem próximo.
Ali ela estaria segura, pois havia sempre muita gente.
Como ficou sabendo que eu era de Bafatá, a mulher disse
que tinha alguns conhecidos ali e que há muito não os via. Pediume
que a levasse até lá, onde começaria uma nova vida e dificilmente
seria encontrada. Concordei e no caminho me contou
detalhadamente a sua história.
Ela se chamava Segunda (certamente por ter nascido numa
segunda-feira). Tinha vinte e dois anos. Não tinha filhos e era da
raça Balantas. Viveu na região de São Vicente cerca de doze anos
com um grupo de Balantas que habitava ali.
Aos dez anos fugiu da sua terra para não casar com o homem
a qual havia sido prometida.
Na tribo Balantas, dizia ela, a criança do sexo feminino
assim que nasce já é dada em casamento. Segundo sua mãe, quando
estava grávida, principalmente depois do oitavo mês, um homem
amigo de seu pai, vivia rondando por ali sempre em volta
da casa puxando assunto para demorar um pouco mais.
Esse homem tinha na época cinqüenta e oito anos, casado
com quatro mulheres e um bando de filhos. No dia que sua mãe
entrou em trabalho de parto, o homem estava ali por perto. Quando
nasceu a criança e a parteira anunciou ser uma menina, o homem
gritou na área da casa “É minha prometida, é minha prometida”. O
pai aceitou, é claro. Além de ser um costume da tribo, é apenas
uma menina e menina não tem valor algum. O quanto antes sair
de casa melhor. Uma boca a menos para comer.
Quando ainda criança, Segunda não entendia porque um
certo velhote vivia visitando a família. Entre tantas crianças ela
era a única que ele achava de fazer gracinhas. Somente bem mais
tarde que veio, a saber, que ele era seu futuro esposo. E que os
feixes de lenha que às vezes ele deixava no quintal, a raiz da
mandioca trazida por ele e o garrafão de vinho, era o dote que ele
pagava ao pai para tê-la como esposa.
O vinho lembra-se, ele mesmo levava e bebia tudo. Sentado
com seu pai conversando e bebendo. Tinha dia que ele
bebia tanto que não conseguia levantar-se. Era necessário que
os irmãos de seu pai o colocasse em pé, segurando-o até suas
pernas firmarem.
Depois o deixava e com um leve empurrãozinho ele começava
a caminhar até chegar em sua casa.
Segunda jamais se esqueceu de um cachimbo fedorento
que ele usava. Quando ela sentia o cheiro daquele “canhoto” –
como eles chamam o cachimbo -, tinha vontade de sumir dali.
Quando completou dez anos as esposas daquele homem a
procuraram. Queriam instruí-la acerca do futuro casamento. Possivelmente
dali dois anos. Ela estaria com doze anos e ele com
setenta. Falaram da cerimônia do casamento e que antes fariam
um teste para saber se ela ainda era virgem ou não. Usariam duas
cabras que permaneceriam amarradas. Uma representava a virgindade,
a outra não. A que urinasse primeiro revelaria o resultado.
E somente assim prosseguiriam com o ritual.
Enquanto Segunda me contava isso e sem prestar-lhe mui
ta atenção, lembrei-me de um fato curioso ocorrido nas Ilhas dos
Bijagós.
Uma vez estava naquela Ilha e conversando com um amigo
bijagós, lhe fiz algumas perguntas sobre sua cultura. Ele me
disse que não sabia ao certo, mas que conhecia alguém muito
entendido, que certamente me daria às explicações.
Era um senhor de idade que morava bem perto de onde
estávamos. Meu amigo disse-me:
– Vamos lá agora em sua casa, pois ele deve estar só. Vi
toda sua família descer para a roça de arroz. Assim será mais fácil
para ele, dar as explicações.
Chegamos a casa daquele senhor. Como meu amigo era
íntimo da família, foi logo entrando sem anunciar, e entrei atrás
dele. Quando chegamos à sala ele estava sentado em um
banquinho de três pernas. No meio de suas coxas estava presa
uma menina, talvez com menos de quinze anos com seu rosto
encostado no chão e o bumbum para cima. Ele tinha em sua mão
um ovo de galinha que tentava introduzir na vagina da jovem.
Assim que chegamos, ele a soltou. Ela desapareceu pela
porta dos fundos. Ele explicou que estava fazendo o teste da
virgindade. Do resultado do teste dependeria o seu casamento
ou não com ela.
Voltando à história de Segunda. Depois de tudo que viu e
ouviu a seu respeito tomou uma decisão. Fugiu de casa sozinha e
foi morar na região de São Vicente com aquele grupo de Balantas.
Três anos mais tarde ela ficou sabendo, através de amigos,
que aquele senhor à quem estava prometida, falecera. Continuou
vivendo ali como agregada na casa de uma grande família. Fez
muitas amizades. Não tinha o porquê se mudar dali onde ela fora
tão bem recebida.
Oito anos depois apareceu na vila um forasteiro que iria
mudar totalmente sua vida.
“Homem de corpo bem feito, no vigor de sua juventude,
distribuindo largos sorrisos exibindo sua dentição branca e perfeita.
Aquele era o homem de minha vida”, disse Segunda.
Caída de amor não tinha olhos para mais ninguém. Um
sentimento intenso se apoderou dela, mobilizando todas as suas
energias e faculdades pessoais. Aquela grande paixão estabeleceu
prioridades absolutas na vida e no comportamento de Segunda,
ao ponto dela se sentir materialmente inclinada a viver e
a agir em função daquele homem. Chegou a deixar de comer.
Seus amigos vendo a loucura que Segunda estava prestes a
cometer, lhe aconselhavam: “Segunda, tome cuidado. Esse homem não
é Balantas, é da raça Felupes. Esta gente não presta. Você irá sofrer muito
se ficar com ele”. Mas, cega de amor não via nada além de felicidades.
Chegava a pensar que seus amigos sentiam inveja dela e por
isso queriam atrapalhar.
Enfim, já estava perdida. Voltar atrás estava fora de cogitação.
Acabou ajuntando-se com aquele homem e foi-lhe sua
esposa.
Passou duas semanas que lhe pareceram uma eternidade
de gozo e felicidade.
Pois, aquele homem com seus carinhos e bajulações a levava
à glória e ela dizia consigo mesmo, “Realmente sou feliz. Este
é de fato o homem da minha vida”.
De repente ele se dirigiu a ela e disse: “Segunda, gostaria
imensamente que você fosse comigo até a minha tabanka, conhecer o meu
povo”. Ela respondeu: “Eu irei. É justo que eu vá, afinal é sua família.
Estamos de favor aqui, quem sabe lá construiremos nossa casa e criaremos
nossos filhos...”.
Eles se despediram dos amigos, e empreenderam então a
longa viagem. Apesar de ser perto geograficamente, com a dificuldade
de transporte e os caminhos precários o casal demorou
quase um mês para chegar ao destino.
De Apilho, um vilarejo às margens do Rio Cacheu, seguiram
a pé pela trilha dentro da floresta até chegarem a uma tabanka
por nome Núpis.
Lá numa grande clareira estavam dispostas duas fileiras de
palhoças, habitações construídas com adobe e coberta de palha.
Uma trilha tortuosa levava até um trapiche no Rio Cacheu, feito
de sibi, uma palmeira resistente, a mais de quarenta anos, onde
de vez em quando algum barco se aventurava atracar à procura
de coco, ovos, óleo de palma, etc.
Segunda logo percebeu que a recepção não foi nada calorosa.
O povo a olhava de soslaio, dizia frases curtas em uma
língua desconhecida e apontava para ela “esticando o beiço” em
sua direção. Até o homem que ela tanto amava e que ele mesmo
muitas vezes lhe havia jurado amor eterno, agora se mostrava
hostil, de pouca conversa, distante, evitando-a ao máximo. Tudo
começou após uma pequena reunião que aconteceu entre os homens
daquela tabanka, assim que chegaram ali.
À noite foi realizada uma grande cerimônia que entre o
sacrifício e todo o ritual demorou várias horas. Porém, Segunda
não foi convidada. Aliás, havia sido proibida de participar.
Não devia nem sair da casa naquela noite, lhe advertira o
marido.
Ao redor de uma fogueira, única fonte de luz em meio daquele
mundo de trevas, o povo dançava ao som dos tambores.
Sozinha naquele barraco escuro, deitada sobre uma esteira,
Segunda meditava. Como era feliz em São Vicente. Como
havia sido estúpida não ouvindo os conselhos dos amigos.
Chegou a lembrar de sua infância na casa dos pais. Sentiu
uma ponta de saudade. Se fosse possível trocaria de situação. Ali
estava acontecendo algo muito estranho que ela não conseguia
entender e ninguém lhe dava explicações.
No dia seguinte seu marido lhe disse: “Vá à casa de Mossó e
traga de lá um pedaço de carne e prepare o nosso almoço”. Ela saiu em
direção à casa de Mossó, que ficava um pouco mais distante das
demais. Ao chegar lá observou que sobre um jirau de bambu estava
certa quantidade de carne coberta com uma esteira. Lá fora
apenas duas crianças entre oito e dez anos, com paus nas mãos
estavam a enxotar os urubus que insistiam em pousar no quintal
em busca de alimentos.
Um pequeno balaio, de tampa, chamou a atenção de Segunda,
pelo fato de uma quantidade enorme de moscas voava em sua
volta. Para satisfazer sua curiosidade ela se aproximou do balaio e
ergueu a tampa para olhar o que continha em seu interior.
Por alguns minutos ela ficou petrificada, parecia que o sangue
gelava em suas veias.
Dentro daquele balaio estava a cabeça de um homem. Segunda
não teve mais dúvidas.
Aquela carne era humana. Aquele povo era canibal. O sacrifício
da noite anterior, a festa, a proibição de ela sair de casa.
Tudo se encaixava.
Retornando para casa disse ao marido que não havia nenhuma
carne. Ele apenas a observou atentamente. Seria aquilo
um teste? Teria sido reprovada? O jeito seria aguardar. O tempo
diria.
Mais tarde outra reunião foi convocada com todos os homens
da tabanka.
Segunda andava de um lado para o outro tentando disfarçar
o pavor que estava sentindo. Quando de repente algo aconteceu.
Entre as pessoas que andavam por ali, reconheceu um rosto
amigo. Era um balantas caçador que viveu um tempo em São

Vicente e a conhecia muito bem.
“Então, o que fazes aqui?” Segunda indagou ao seu amigo.
Estou há três anos em uma tabanka de balantas a alguns quilômetros
daqui. Sou caçador e estou à procura de alguns serviços.
“E você, que faz aqui?” lhe perguntou o caçador. Segunda revelou
que estava casada com um felupes há quase dois meses.
Segunda percebeu que o semblante de seu amigo mudara.
Ele se aproximou de seus ouvidos e lhe disse: “Vou te contar um
segredo. Este povo é canibal”. Ela disse que já descobrira isso. “Então
vou lhe contar algo mais atemorizante. Na reunião desta tarde ficou
decidido que esta noite eles lhe matarão e comerão a sua carne”.
Segunda ficou triste. Sabia desde então que dificilmente
conseguiria escapar dali, porém seu amigo lhe informou da existência
de um barco encalhado no Cacheu, aguardando a subida
da maré para retornar às águas que lhe permitirão navegar. O
amigo lhe disse:
– Eu virei até a sua casa e ficarei conversando com o povo.
Enquanto isso, discretamente, você amarre em minha bicicleta o
mínimo de carga que você tiver...
As águas deverão subir por volta das cinco horas da tarde.
Ao meu sinal você se oferece para me acompanhar na saída, e eu
te ajudarei a fugir.
O plano correu perfeitamente bem. Próximo das 17 horas
o balantas olhou pausadamente para Segunda e disse para o povo
da casa:
– Bom, tenho que ir. Já está ficando tarde. A moça imediatamente
disse:
– Eu lhe acompanharei até à saída. E ambos saíram caminhando
devagarzinho.
Na primeira curva da trilha os dois montaram a bicicleta e
pedalando rapidamente alcançaram o local onde o barco estava.
Dentro de segundos os balantas transpuseram o trapiche e se
jogaram dentro do barco. Em poucas palavras o caçador explicou
e rogou aos barqueiros que salvassem aquela mulher.
Eles a esconderam atrás de uma pilha de sacos de coco e
antes que o barco zarpasse, surgiu à margem do Cacheu cerca de
vinte ou trinta felupes, todos armados com lanças, arcos e flechas,
e instavam com o caçador, querendo a todo custo a mulher
que havia fugido. O balantas insistia com eles que ela havia voltado
desde a curva do caminho, e que estava ali apenas para
mandar um recado para alguém em São Vicente.
A insistência dos felupes foi tanta que dois deles adentraram
ao barco e se puseram a procurar por Segunda. Ao se proximarem
do local onde ela estava escondida, o capitão do barco lhes avisou...
Ali tinham sacos com ovos e se fossem quebrados eles
pagariam o prejuízo com a vida. Vários marinheiros surgiram e
eles saíram da embarcação.
O motor roncou. O barco ganhou o leito mais profundo do
Rio Cacheu e tomou rumo de São Vicente, sob uma chuva de
flechas. Os marinheiros fecharam as escotilhas e seguiram viagem
rio acima, chegando ao seu destino, na outra banda do
Cacheu, já tarde da noite.
Segunda desceu do barco. Assustada e transtornada com
tudo. Seguiu correndo estrada à fora, rumo ao vilarejo de
Antotinha.
Quando o Sol raiou, ela estava exausta, com sede e fome.
Escondeu-se no mato, ficando a espera de uma oportunidade para
escapar de uma vez dali. Foi quando afinal e providencialmente
eu passava por ali.
No caminho, eu vendo todo aquele desespero, a falta de
paz naquela alma, logo lhe apresentei Jesus Cristo, o Salvador.
Deus lhe abriu o entendimento e ela aceitou o Senhor como o
seu único e suficiente Salvador.
Vi rolar daqueles olhos outrora tristes, duas lágrimas de
gozo e de paz. Porque Jesus lhe havia perdoado todos os seus
pecados e lhe dado segurança e esperança.
Chegando a Bafatá reunimos os cooperadores da Igreja e
expus o acontecido. A nova irmã foi levada para ser hóspede de
42 José Ferreira
uma mulher balantas que era cristã e membro da Igreja em Bafatá.
Ainda boquiaberto com tudo que havia ouvido, os irmãos
cooperadores disseram que apesar da proibição do Estado da
punição empregada, ainda existiam grupos isolados na selva que
praticavam o canibalismo.
O diácono Pedro, nosso cooperador, me disse:
– Irmão, eu sou natural de São Vicente. Já vivi em Apilho
e outras tabankas daquela região. Posso confirmar, inclusive, existem
casos que eu mesmo presenciei. Naquela região vivem além
de grupos balantas, os kassangas e mais dois tipos diferentes de
felupes. Os que são canibais e os que não são.
Convidei o irmão Pedro para pregar no culto da irmandade
no domingo, e dar testemunho de casos de sacrifícios humanos
seguidos de canibalismo, para sensibilizar a Igreja e despertar o
povo para combater, com a Palavra de Deus, essa barbárie.

POLIGAMIA UM REI COM 40 ESPOSAS


O Encontro com um Rei
As viagens dentro do território guineense eram muito difíceis.
Dificílima, dependendo para aonde se ia quase impossível.
Muito das vezes o viajante era compelido a jogar-se ao solo, vencido
pela exaustão. Se a provisão de alimento e água não fosse
suficiente, com certeza teria que provar um cardápio bem diferente
do costumeiro.
Quando decidi deixar Bafatá rumo a Ilha de Pecixe, do
oeste para o leste do país, já sabia que seria muito difícil. Alguns
negativistas chegaram a prever que eu seria devorado pelos enormes
crocodilos. Outros relatavam casos de canoas viradas por
hipopótamos, justamente no lugar que eu teria que passar.
O desejo de conhecer mais a cerca daquele homem interessante,
era tão grande que me cegou para as dificuldades que
poderia enfrentar. Aliás, era a primeira vez que eu iria entrevistar
um rei. Valeria a pena, sim. Quantas vezes eu viajei por
motivos menos importante e corri o risco pelo caminho até alcançar
o objetivo.
A primeira etapa, de Bafatá a Bissau, a capital do país, fiz
de moto. Tudo correu bem, apesar da carga que me obrigava a
parar várias vezes para ajustá-la. Sempre tinha que levar um ga
lão extra de gasolina, outro de água além da barraca, colchonete,
panelas, alimentos, roupas, remédios, etc.
Uma vez em Bissau fui até ao Porto das Canoas sondar a
possibilidade de alugar uma para seguir até a Ilha de Pecixe. Encontrei
um pequeno grupo de homens, talvez uns oito, e apenas
três canoas atracadas. Conversando com alguns sobre a viagem,
dois deles se mostraram interessados. Disseram-me que a canoa
deles era muito boa, que tinham experiência até em mar alto, e
que o trajeto era bem conhecido.
Apesar da crise que o país enfrentava com a falta de combustível,
eles estavam dispostos a remar. Mesmo assim afirmavam
que a viagem seria rápida. Combinamos então a saída para o
dia seguinte, às 5 horas, aproveitando a vazante da maré.
Quando ia me retirando um deles disse-me que eu teria
que pagar metade do combinado, caso contrário ele alugaria a
canoa para outro que aparecesse. E agora, correria o risco de ser
enganado ou, de perder a viagem tão esperada? Afinal ali somente
havia três canoas e eles que se dispuseram em ir até a Ilha de
Pecixe. Paguei então e fui para o local onde estava hospedado.
Passei a noite quase toda acordada pensando naquela viagem.
No outro dia um amigo holandês me levou em seu Land
Rover até próximo ao Porto das Canoas. Deixou-me ali e retornou
para sua casa enquanto eu caminhava até o cais. Ao chegar fiquei
espantado ao ver uma multidão de mais de seiscentas pessoas e
quase cento cinqüenta canoas.
No escuro os homens pareciam todos iguais e as canoas
tinham o mesmo formato. O povo andava de um lado para outro,
uns puxando cabritos pela corda, outros com porcos nos
braços, frangos amarrados pelas pernas pendurados em varas.
As mulheres conduziam enormes cestas na cabeça e crianças
amarradas às costas.
Já estava quase desistindo quando ouço alguém chamar.
– Tuga, tuga, vamos que a maré está baixando.
A palavra tuga se traduz por colonizador, mas eles a usam
para identificar o branco.
Apesar de tudo parecer igual para mim, eu era completamente
diferente para todos.
Iniciamos a viagem. As primeiras horas da manhã foram
muito agradáveis. Assistimos ao nascer do Sol. Foi um espetáculo
deslumbrante. Assim que o Sol despontou, por alguns minutos, as
águas do mar se coloriram de um vermelho sanguíneo. Soprava
uma brisa suave. As gaivotas sobrevoavam a canoa enquanto os
golfinhos a acompanhavam fazendo seus malabarismos.
O capitão e seu ajudante que diziam se chamar Paxana e
Propana eram filhos do mesmo pai, porém de mães diferentes.
Eles me contaram cada história incrível de quando estiveram na
guerra contra os portugueses. Havia na canoa mais quatro rapazes
contratados para ajudar no remo. O esforço foi tão grande
que sobrou para mim. Tive que remar também. A viagem durou
dezesseis horas. O calor, de quarenta a quarenta e cinco graus
centígrados, ficou quase insuportável e a umidade do ar chegou
aos cem por cento. Fizemos apenas duas paradas.
A primeira parada foi no porto de uma ilhota onde havia
algumas famílias de pescadores.
Todos estavam completamente nus. Alguns consertavam
redes enquanto outros fabricavam canoas de tronco. As moças
mexiam nas panelas de barro sobre uma trempe de pedras. As
mulheres pilavam grãos.
Uma criança defecou bem próxima a uma mulher que cozinhava
algo em seu “fogão” de três pedras. Quando o menino se
levantou a mulher, com uma cuia, jogou água em sua mão passando-
a no bumbum da criança. Em seguida voltou a mexer a
panela com uma colher de pau.
Os companheiros de viagem se embrenharam no mato a
procura de vinho para beber. Eu achei uma sombra de um frondoso
cajueiro. Quando pensei em descansar ali, um bando de crianças
se aproximou, olhando-me atentamente.
Tentei um diálogo, porém sem sucesso. Como elas me olha
vam o tempo todo sem falar nada, tentei oferecer um pacotinho
de balas que se encontrava em minha bolsa. Ao abaixar para pegar
as balas, elas se assustaram, saindo correndo, chorando e
gritando.A única que ficou fez xixi ali mesmo e seus joelhos batiam
um no outro.
Quando prosseguimos a viagem contei aos companheiros
o que tinha acontecido. Um deles esclareceu o fato. Era costume
entre certas mães dizer aos filhos “se você não fizer isto, o branco vem
te pegar”. Foram mais quatro horas de suplício sob um Sol
causticante até a próxima parada.
Um porto infestado de mosquitos ávidos por sangue. Mal
colocamos os pés em terra já nos atacavam. Tínhamos que estar
o tempo todo batendo um pano no corpo. Notei que alguns moradores
daquele lugar pareciam fantasiados. Fiquei sabendo depois
que era apenas uma proteção. Eles fazem um “caldo” com o
estrume do gado e o aplicam sobre a pele. Seco, ele forma uma
crosta que impede a picada dos mosquitos.
Naquele lugar fomos bem recebidos pelos moradores. Um
senhor nos convidou para entrar em sua casa e nos apresentou
sua família começando pelas esposas. Uma senhora que aparentava
ter cinqüenta anos era a sua primeira mulher e dona da casa.
Depois veio a segunda, a terceira, quarta e por último uma menina
com onze ou doze anos. Esta seria a quinta esposa.
Depois foi a vez dos filhos. Ele dizia “este eu pari com aquela...
este outro eu pari com esta...” e assim até apresentar todos os
seus rebentos.
Nos ofereceram água fresca. Os homens travaram uma
conversa animada em uma língua que eu não entendia nada do
que falavam.
Fiquei, só, na área da casa, sentado em uma esteira tentando
descansar.
Uma menina, cerca de oito anos, chegou perto de mim e
estava a fim de conversar. Ela tinha um penteado, com várias
trancinhas, muito bem trabalhado.


Eles observam atentamente os cabelos lisos que são uma
grande novidade. Existem pessoas que nunca viram alguém de
cabelos lisos. Como os macacos têm os pelos lisos, para eles nós
parecemos macacos.
Na terceira etapa da nossa jornada, de fato passamos pelos
bandos de crocodilos. Eles pareciam troncos de árvores flutuando
sobre a água. Mais adiante uma preguiçosa família de hipopótamos
se refrescava deixando apenas o nariz e o fio do lombo
fora d´água. Eu mesmo não os teria notado se não fosse alguém
da canoa que gritava... “Pis kabalo, pis kabalo! (peixe cavalo, peixe
cavalo)”, forma como eles chamam o hipopótamo.
Finalmente chegamos a um porto. Fui informado que estávamos
na Ilha de Pecixe. Eram quase 22 horas. Para chegarmos
ao vilarejo Fante ainda caminhamos vários quilômetros.
Eu disse a ela: bo sedu badjudaziña bunitu (você é uma mocinha
bonita). Ela respondeu: bo sedu fio (você é feio). Indaguei:
pabia di ke (porquê?). A resposta: bo sedu suma sancho (você parece
um macaco). Ela tinha certa razão.






O Testemunho
Meu nome é Okamte Zabane. Sou natural da Ilha de Pecixe, de
família real. Herda-se a “reinança” através da linhagem materna.
Em 19 de outubro de 1955, com apenas 21 anos de idade e sem
muita experiência, eu fui consagrado Rei da Ilha de Pecixe. O Estado me
concedeu um conselheiro. Seu nome era Manoel da Silva que reuniu certos
homens e decidiu que deveria construir uma casa nova com todo o conforto
para o régulo Okamte pudesse reinar com toda liberdade. Régulo é o nome
que dão ao rei de uma pequena nação.
Não me foi permitido ocupar a antiga casa real. Segundo o conselheiro,
a casa estava velha. Eu teria a minha própria casa. Durante todo
o tempo da construção também fui proibido de ver o que estava acontecendo.
Somente depois de pronta tive a permissão de entrar nela. Na sua inaugu-
Acampamos e ao amanhecer fiquei sabendo que poderia
ter feito a viagem por terra, muito mais curta e menos cansativa.
Cheguei afinal na casa da pessoa quem eu procurava. Fui
muito bem recebido e fiquei hospedado ali. Ele se dispôs a contar
um pouquinho de sua história.
ração, seguida da posse, houve seis dias e seis noites de festa. Havia muita
carne, bastante vinho, música e danças.
Comecei então a reinar. Meu poder era absoluto. Eu mesmo compunha
as leis que regia aquele povo. Claro que as compunha ao meu belprazer,
facilitando sempre para o lado da casa real. Escolhi a dedo todos
os meus ministros, homens feiticeiros de forma comprovada. O critério usado
na avaliação e escolha foi observando o grau de maldade de cada
um,inclusive o requinte de crueldade usado em suas obras de feitiçarias.
Foram convocados os soldados para a guarda da Ilha. A guarda
pessoal do régulo foi composta de jovens denominados “rapazes do régulo”.
Eles estariam em toda a parte onde quer que o régulo se encontrasse. Fora
e dentro da casa, garantindo assim a segurança pessoal, para que o régulo
não fosse molestado.
Os despenseiros também foram chamados. Homens que tinham a
obrigação de prover toda sorte de alimentos para a despensa real. Tinham
o poder para tomar animais onde quer que eles se encontrassem a fim de
não faltar a melhor carne na mesa abastada do régulo. Além do vinho
nacional que entrava em forma de tributo, os despenseiros mandavam vir
da Europa uísque e conhaque da melhor qualidade.
Entre os anos de 1955 a 1966 eu tomei trinta e três mulheres para
esposas, além de inúmeras amantes, pois tinha todas as mulheres que eu
queria. Era só mandar buscar que elas tinham que vir. Sem contar as
jovens que eram levadas pelos próprios pais, que escolhiam entre as mais
belas as apresentavam à porta da casa real, onde rogavam para que as
aceitassem.
Foi construído um pavilhão somente para as mulheres. A cada cinco
compartimentos tinha seu próprio quintal. Havia até uma maternidade
para a casa real.
Constantemente havia mulheres gestantes as quais eram bem tratadas
até a hora do parto. Depois a criança era levada pelos feiticeiros que
lhe dariam cuidados especiais, principalmente se fosse do sexo masculino e
somente voltava à mãe para a amamentação.
Nenhuma forma de assistência pós-parto era dada para as mulheres,
nem alimentá-las era permitido. Ficavam à mercê da própria sorte. Se
não fosse a compaixão de seus familiares em levar-lhes algo para comer,
pereceriam de fome, com certeza.
Tudo estava em minhas mãos. Cada cerimônia eu decidia tudo.
Saíamos para algum “choro” importante (velório ou festa de aniversário
de morte de alguém), tomávamos conta da estrada. Todas as esposas,
alguns filhos, a guarda pessoal, alguns soldados, os ministros... Enfim,
uma multidão.
Quanto ao castigo, muitas vezes eu fazia questão de aplicar pessoalmente,
para ter certeza que o infeliz recebeu tudo o que ele merecia.
Por vários anos em que eu vivia em toda aquela glória, não conheci
ninguém mais poderoso que eu. Sim, eu me sentia o próprio Deus. Nos
julgamentos de questões entre o povo, eu dava razão a quem queria,
mesmo sabendo que a pessoa estava errada. O que estava certo tinha que
sofrer o dano.
Na década de 60 com o movimento para libertação da Guiné do
colonialismo português, por motivos políticos, fui preso por um tempo. Minha
vida começou a mudar completamente.
Eu não sentia paz. Minha consciência pesava dia e noite. Lembrava-
me de quanto sofrimento eu havia causado para aquelas mulheres.
Quantas mãos por mim arrebentadas pelas palmatórias, dos animais
arrebatados de seus donos, muitas vezes eram o único animal que
possuía, ainda assim, sem piedade, eu os tirava para não faltar carne
na minha mesa.
Lembrava-me das feitiçarias. O quanto delas praticadas ao longo
dos anos no afã de conseguir tudo o que eu desejava.
No ano de 1966 eu tive um encontro real com Jesus Cristo, o verdadeiro
Rei. Rendi-me totalmente à sua vontade. Ele perdoou todo o meu
pecado. Transformou a minha vida.
Libertou-me daquela escravidão em que eu vivia. Somente, então,
conheci a verdadeira paz.
Como o meu reinado decadente já estava no final, não me restava
mais poder algum.
Minha glória terrena havia passado. Minhas esposas aproveitaram
a ocasião e me abandonaram uma a uma. Restou-me apenas uma
Portas de Bronze 31
que teve uma experiência maravilhosa com Deus. Perdoou-me e ficou ao
meu lado.
Hoje eu não tenho nada além deste casarão vazio e escuro. Mas
tenho Jesus em minha vida. Gozo a verdadeira paz. Deito e durmo tranqüilo.
Tenho certeza que um dia terei a verdadeira glória com o Senhor.
Pois bem, eis aqui em rápidas pinceladas o que foi a vida
de Okamte Zabane, o régulo de Pecixe. Hoje ele ainda vive na
Ilha, por ser de família real o seu povo ainda o respeita. Ali desenvolve
um trabalho do tipo de ouvidor público. As pessoas o
procuram apresentando-lhe certas questões que ele procura resolver.
Claro que de maneira justa, procurando sempre a direção
de Deus em cada caso.

CIRCUNCISÃO FEMININA

CIRCINCISÃO FEMININA
Seis de novembro de 1987. Uma sexta-feira. São sete horas. É o final da estação chuvosa aqui na Guiné. A chuva cai quase todos os dias de maio a outubro, produzindo um enorme lençol verde em toda a savana, ornamentando-a com flores silvestres e belas aves exóticas. A região de Bafatá é chão das tribos muçulmanas Fulas e Mandingas. Na nossa rua o movimento é incomum desde a madrugada, deixa antever que algo está para acontecer. Talvez uma cerimônia importante seguida de festa. As mulheres africanas estão chegando a todo o momento, exibindo seus “panos novos” e os cabelos tecidos formando penteados complicados. As bailarinas trazem chocalhos em volta da cintura e dos tornozelos. Os jovens e senhores chegam com seus tambores. Desde a madrugada ouvíamos o barulho dos pilões. São as mulheres preparando o arroz, mancarra (amendoim) e o “xebem” (polpa do fruto de onde se extrai o óleo da palma). Elas pilam em três ou quatro para cada pilão, produzindo um som cujo arranjo musical foi composto, segundo eles, pelos deuses africanos. Os movimentos que uma mulher faz ao levantar e baixar a mó do pilão leva o seu corpo a obedecer ao compasso da música, produzindo assim uma dança perfeita. A mulher africana não necessita aprender a dançar. Ela já nasce sabendo. Traz esse conhecimento desde a sua infância. Muitas e muitas vezes ainda no ventre da mãe ou amarrada às suas costas ela dançou ou ouviu aquela música. Está chegando em nossa casa o jovem Kebá, meu professor da língua Fula. Kebá é um moço talentoso. Possui grande conhecimento nos usos e costumes de sua tribo. É muçulmano praticante e professor da Língua Portuguesa na escola da cidade. Com muito jeito – para Kebá não notar a minha curiosidade – lhe faço uma pergunta objetiva. – Então, o quê está acontecendo na casa do vizinho? Ele me responde: – Não é nada. É apenas a festa de Mariama! De início pensei logo que se tratava de aniversário. Mariama tinha apenas seis anos. Menina esperta. Quantas vezes ela ia até nosso portão e ficava conversando conosco. Uma criança normal que gostava de brincar como as outras crianças e fazer de tudo relativo à sua idade. Alguém já havia dito à ela naquele dia: esta festa toda é para você. A pessoa mais importante, hoje, é você. Ela corria de um lado para o outro trajando seu vestido novo, meio sem jeito. Mariama sempre usava apenas trapos imundos, revelando a pobreza em que vivia. No terreiro, espalhadas pelo chão, esteiras de juncos, várias cabaças cortadas ao meio servindo de tigelas, continham certos alimentos, além de garrafões de vinho de caju. Enfim a “mesa” do banquete estava posta. De repente ouve-se gritos estridentes de dor profunda. Uma criança gritava e chorava ao mesmo tempo. Então seus gritos foram abafados pelo rufar dos tambores e o chocalhar das danças. Era o ponto culminante da cerimônia. Daí em te ouvia-se os adultos conversando e rindo, demonstrando satisfação e alegria. O que estaria de fato acontecendo ali? Estaria aquela gente fazendo algum sacrifício humano? Tínhamos ouvido histórias de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo entre as tribos africanas. No entanto, Kebá que percebia a nossa inquietação, disse: – Foi apenas a Mariama que lhe botaram o fanado. Fanado? Sim. O que eles chamam de Pequeno Fanado nada mais é que a circuncisão feminina, algo que acontece com todas as crianças muçulmanas do sexo feminino entre quatro e seis anos de idade. Como é feito isto, pergunto. Uma “mulher grande” – senhora de idade –, com muita responsabilidade e experiência, lanceta com um bisturi de fabricação caseira, o clitóris da criança. A finalidade principal de se botar o fanado na menina, é para que elas não venham a ter prazer sexual, facilitando assim a submissão total ao homem, no caso, o seu marido. O dever da mulher em certas tribos africanas é satisfazer sexualmente o seu marido, obedecer-lhe em tudo, cuidar do campo de arroz, da horta, da casa, etc. Dar-lhe bastantes filhos e criá-los. As mulheres ao casar, seus bens passam a pertencer ao marido, tendo posse somente de seus colares e brincos feitos de conchas marinhas, além do “pano” que envolve seus corpos da cintura para baixo. Da cintura para cima não é precisamente necessário usar roupa alguma. Os seios à mostra servem para facilitar a avaliação masculina. A menina africana entre dez e onze anos, quando começa a despontar seus seios, sabe-se que já está pronta para casar. O homem a quem ela foi prometida, procura a família dela para providenciar a cerimônia de casamento. Por outro ângulo, os seios volumosos demonstrarão capacidade para amamentar os filhos, despertando interesse em homens para tomá-la por esposa, caso não seja prometida. O Grande Fanado Quando a jovem africana das tribos muçulmanas atinge de onze a dezesseis anos, é levado ao Grande Fanado. Um grupo de meninas vai para a selva, num lugar secreto previamente escolhido por adultos, longe dos olhares curiosos dos homens e de algumas mulheres que de algum modo escaparam do Pequeno Fanado. É possível circuncidar jovens na idade adulta. Se esta se apresentar para o Grande Fanado e comprovado através de exame prévio que não possui a cicatriz no clitóris, então ela é circuncidada ali mesmo, na hora. Ao chegarem na clareira sagrada para as cerimônias do Grande Fanado, as jovens têm que se despir completamente. Suas roupas são bem guardadas, pois são impedidas de sair dali antes do término do evento. Este segundo e último fanado demora vários dias para ser realizado. Durante todo o tempo as candidatas permanecem nuas. Uma vez ali não há lugar para arrependimento. Ali elas aprendem como ter relação sexual com o futuro marido, como obedecê-lo em tudo, agradando-o da melhor maneira, e, muitos conselhos para fazer delas esposas ideais. Tudo o que fazem ali tem que ser dentro de um segredo absoluto. Não se comenta nada com ninguém, a não ser com outra mulher comprovadamente circuncidada. Antes de saírem dali são feitos certos juramentos de que tudo o que aconteceu não vai cair nos ouvidos de homens ou mulheres não circuncidadas. Para um estrangeiro obter certas informações fica mais fácil usando o sistema do “soko di bas”. Esta expressão da língua crioula quer dizer soco em baixo que nada mais é do que alguém com o punho fechado, levando-o rapidamente em direção ao baixo ventre de outra pessoa, que para se defender segura de imediato aquela mão fechada que logo se abre passando assim o dinheiro da propina. Com um “soko di bas” de dez dólares é possível conseguir boas fotos, filmagens, entrevistas e até ouvir esses tão guardados segredos. Somente depois de terminado todo o ensinamento é que as meninas recebem suas roupas, panos para a cabeça, miçangas de conchas, provas de que já participaram do Grande Fanado. Voltam para suas casas, festejam com seus familiares, se sentem importantes e superiores perante aquelas que ainda não foram ao Grande Fanado.
Perguntas? Comentários? Envie-me um e-mail:
joseferreiralisboa@gmail.com